Entenda os principais desafios médicos nos próximos anos

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Rápido e devagar – Daniel Kahneman – 2011

A medicina e as ciências médicas evoluíram nos últimos 100 anos em proporções nunca antes vistas. O século XX testemunhou a invenção e disseminação de inúmeras vacinas, a descoberta da penicilina, a diminuição colossal da mortalidade materna e infantil, a descoberta e sequenciamento do DNA humano. Atualmente somos testemunhas de inovações que para muitos parecem tiradas da ficção científica. Coisas como cirurgia robótica, impressão 3D de tecidos e manipulação genética de fetos são realidade no mundo de hoje. Como os médicos, profissionais ainda hoje formados muito aos moldes de uma medicina tradicional do século XX, estão se adaptando a isso tudo? Quais os maiores desafios da profissão para os próximos anos?

 

Entenda os principais desafios médicos nos próximos nos próximos anos:

O desafio do ensino

O primeiro ponto a se abordar é o ensino médico. A formação já longa (6 anos para um médico generalista no Brasil) parece não dar mais conta da quantidade de informação acumulada pela humanidade no que diz respeito às ciências médicas. A necessidade de uma especialização, de forma que os assuntos possam ser abordados de forma mais aprofundada, já é uma realidade há muito tempo, mas agora parece mais essencial do que nunca. Mesmo dentro das especialidades há cada vez mais a tendência da subespecialização, resultando em profissionais cada vez mais focados em cada vez menos. O que vemos, salvo raras exceções, é um mercado saturado de especialistas, que são cada vez menos valorizados dada a sua oferta abundante. Outro ponto a se pensar, se considerarmos o sistema público de saúde, é a demanda por médicos generalistas para atender a população, demanda esta não suprida devido a desvalorização do não especialista em termos financeiros e profissionais.

O desafio das estatísticas 

Outro ponto essencial a ser tocado quando pensamos em século XXI é a medicina baseada em evidências e como a boa prática médica deve obrigatoriamente passar por ela. A nova linguagem da medicina é a estatística, e todo médico deve estar apto para entendê-la de forma crítica e assertiva. O profissional deve ser capaz de consumir quantidades imensas de informações de estudos clínicos publicados diariamente, julgá-los a partir de suas falhas e acertos e definir mudar ou não suas condutas na prática baseados em suas conclusões. O ensino médico nas universidades capacita os profissionais para tal? Somos bons estatísticos por natureza, mesmo sem nos aprofundarmos nesse estudo? As evidências mostram que não. No livro “Rápido e devagar”, o psicólogo e economista Daniel Kahneman demonstra de forma exaustiva como até mesmo matemáticos e estatísticos são péssimos em análises intuitivas. Os vieses que enfrentamos são os mais variados: efeito âncora (conclusões que resultam de dados irrelevantes), otimismo supervalorizado, vieses de apresentação (90% de sobrevivência certamente soa melhor que 10% de mortalidade), entre muitos outros. Apenas com a consciência de que somos péssimos estatísticos por intuição e ensino adequado da matéria nas escolas médicas poderemos fazer avaliações bem embasadas e nos atentarmos para situações de risco em que os erros de julgamento acontecem com maior frequência.

E quando não há evidências suficientes? E quando os diagnósticos são falhos, o curso da doença é imprevisível, as singularidades do paciente não se encaixam nos estudos populacionais e seus resultados precisos? Profissionais moldados em um mundo de guidelines e fluxogramas bem definidos, consagrados por anos de estudo, invariavelmente vão descobrir como todo o nosso conhecimento pode ser falho quando expostos a problemas para os quais não temos a resposta ideal.

Conclusão

Ao contrário de nossos colegas dos séculos passados, não sabemos mais lidar com incertezas. A carga de angústia que casos mal solucionados impõe aos profissionais hoje em dia é gigantesca, já que as expectativas de tantas revoluções tecnológicas é imensa.

O mundo mudou e está em evolução constante. Os problemas citados anteriormente são apenas exemplos em um mar de questionamentos que surgem com essa nossa nova realidade. Cabe a nós médicos nos adaptarmos e tirarmos o que há de melhor desse novo século para o benefício de nossos pacientes e da prática da medicina como um todo. Nem sempre será mais fácil, mas a consciência desses desafios no horizonte certamente nos torna mais preparados para o que virá.

 

Autora: Dra. Caroline Gracia Plena Sol Colacique

 

Referências:
Data Science Meets the Clinician: Challenges and Future Directions. Charitos EI1, Wilbring M1, Treede H1. Thorac Cardiovasc Surg. 2018 Jan;66(1):7-10. doi: 10.1055/s-0036-1586158. Epub 2016 Aug 10.

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